O Zebu
História Quem Foi Fernando Costa O Zebu

Introdução das raças zebuínas no Brasil

Leopoldo Costa

O primeiro registro de entrada de zebuínos no Brasil foi em 1813, quando um casal de bovinos, oriundo da costa do Malabar na Índia foi desembarcado no porto de Salvador. Embora estudiosos especulem que os primeiros bovinos que chegaram a São Vicente em 1534, foram mestiços com algum sangue de Zebu.

Mais tarde, da África vieram em 1826, dezenas de animais da região do Nilo e entre 1810 e 1890 do Senegal, do Congo e da Nigéria, do Madagascar também vieram animais em 1891. Infelizmente não foram deixados registros sobre a identificação das raças que vieram dessas importações.

Em 1868, um navio inglês descarregou um casal de zebuínos em Salvador. Foram vendidos imediatamente, mas, não se sabe o que aconteceu com eles.

Em 1870, o 1º barão de Duas Barras, João Antonio de Morais (m. 1883) importou um touro Guzerá para a sua fazenda de Cantagalo, na província do Rio de Janeiro.

No início, os zebuínos eram animais exóticos e adquiridos dos zoológicos europeus.

Em 1874, o barão do Paraná, Henrique Hermeto Carneiro Leão (1847-1916) importou um touro e uma vaca da raça Ongole (Nelore) do jardim zoológico de Londres. Fez outra aquisição da mesma raça em 1877.

No ano de 1878, Manoel Ubelhart Lemgruber comprou um lote de zebuínos Nelore da 'Casa Hagenbeck' de Stellingen, Alemanha, que levou para a sua fazenda de Sapucaia (RJ), onde sobre controle cientifico iniciou o aperfeiçoamento da raça.
Na década de 1940, Geraldo Soares de Paula de Curvelo (MG) adquiriu alguns animais dele e continuou o seu trabalho de aperfeiçoamento.

Também a família Lutterbach fez algumas aquisições desta mesma casa fornecedora.


Outras empresas foram envolvidas na importação de gado da Índia, como a 'Friburgo & Filhos', sediada no Rio de Janeiro, pertencente à família Clemente Pinto dos barões de Nova Friburgo importantes fazendeiros de café e proprietária do palácio do Catete, e a 'Crashley & Co'. de capital inglês.

As mais atuantes foram a 'Hopkins, Causer & Hopkins' de Birmingham, Inglaterra, que tinha filiais no Rio de Janeiro, São Paulo e Juiz de Fora (MG), que efetuou muitas importações entre 1908 e 1910, a maior quantidade para o governo de Minas Gerais e a 'Casa Arens', também sediada no Rio de Janeiro e com filial em São Paulo.

Mais tarde, nas décadas de 1910 e 1920, começaram a importar diretamente da Índia. Estas importações foram realizadas através das casas especializadas em animais do Rio de Janeiro e por famílias de origem alemã do interior do Rio de Janeiro, principalmente do município de Cantagalo. Os primeiros animais eram da raça Ongole, que ficou entre nós conhecida como Nelore. A razão do nome é que os brasileiros compravam os melhores animais da raça Ongole e usavam a província de Nelore como local de embarque dos animais para o Brasil.

A partir destes primeiros animais foram povoados os estados de Minas Gerais e Bahia.

Nas primeiras décadas de nosso século, embora tenha aumentando o numero de criadores, os planteis ainda eram pequenos e seus proprietários não eram tão prósperos, faltavam fundos até para substituir os reprodutores que envelhecessem. Queriam melhorar, porém, não tinham incentivos do governo e nem oportunidades comerciais. Foram informados sobre a qualidade e rusticidade do gado zebuíno e queriam ter acesso a isso.

Da Índia podem ter vindo 6.000 cabeças das raças Kankrej (Guzerá), Ongole (Nelore), Gir, Sindhi, Kangayan, Mysore, Malvi, Hissar, Tharparkar, Krishna Valley, Mehwaty, Deangi e Deoni. Apenas as quatro primeiras raças prosperaram e produziram descendentes, das outras, os rebanhos existentes são pequenos ou desapareceram.

Em 1920 o governo decidiu suspender temporariamente a importação de gado Zebu de origem indiana, até que ficasse completamente comprovada a inexistência de epizootias no gado importado, o que era comum no país de origem.
Foi decidida também a instituição de locais para quarentena, chamados na época de 'lazaretos' para deixar todo o gado importado em observação, nos mesmos moldes do que fazia os Estados Unidos.

Havia no Brasil uma notada resistência em aceitar o gado zebuíno. Um relatório do Ministro da Agricultura reconhecia que o gado zebuíno em geral fornecia mais carne do que o de outras raças, porém a carne não é tão 'boa'.

O governo brasileiro solicitou informações oficiais ao governo dos Estados Unidos sobre a qualidade do gado Zebu, que também estava sendo importado pelo país. Em resposta, numa carta datada de 14 de fevereiro de 1920, o chefe do setor de Zootecnia dos Estados Unidos, informava que o gado zebuíno teve um grande desenvolvimento nos últimos tres anos, principalmente na região do Texas. Observou que o gado era muito mais resistente á seca do que o gado europeu.

Só em 1962 foi oficialmente sustada essa proibição, porém todos os animais importados deviam permanecer em quarentena de 8 meses na ilha de Fernando de Noronha.

O médico e filósofo positivista Luís Pereira Barreto (1840-1923) em artigos publicados no jornal 'O Estado de S. Paulo' entre os anos de 1917 e 1921 desancava a raça. Dizia que o Zebu era 'selvagem, impossível de domesticar', que 'a carne tem catinga' e ainda que 'os europeus só a comeram durante a guerra porque tinham fome ' Os fazendeiros mineiros eram chamados de 'boiadeiros e não criadores', 'levianos' e 'velhacos', 'verdadeiros passadores de notas fiscais.' Muitos cientistas e políticos aderiram a causa, defendendo a raça Caracu como a ideal para o Brasil.

Os criadores de Zebu mineiros não ficaram preocupados com a veemência dos artigos do médico. Um velho fazendeiro do Triângulo Mineiro, o 'coronel' Horácio Lemos disse:
'nessa região deveria ser erguido um monumento a Pereira Barreto porque sua campanha impediu que os campos paulistas se enchessem do gado Zebu, trazendo riqueza ao Triângulo, que passou a abastecer os frigoríficos paulistas.'

Novamente em 2007, dessa vez foram os irlandeses que incomodados com a posição brasileira no mercado mundial de carne, decidiram levantar uma polêmica. Membros da 'Associação dos Fazendeiros Irlandeses' alegaram que a 'carne bovina' produzida no Brasil e exportada para a Europa não seria a 'autêntica carne bovina, mas um produto híbrido, resultado de um cruzamento de boi com búfalo'. Os produtores e governo brasileiros demonstraram a falácia dos irlandeses.

A carne do Zebu é a mais adequada para a produção de um tradicional produto italiano, a 'bresaola' que é preparada de carne bovina seca bem magra, curada no sal por 10 dias e curtida no sol e vento por quatro semanas. É produzida na região da Valtellina, no norte da Itália. A carne do Zebu brasileiro é a mais adequada para fazer 'bresaola'. As carnes do gado europeu são gordas demais e 'marmorizadas' e não agradam mais aos exigentes consumidores.

Em 1939, foi importada uma dezena de animais da raça Africânder dos Estados Unidos, sendo que os animais eram provenientes da África do Sul.

Recentemente, foi iniciada a importação de Brahman dos Estados Unidos, o que é uma raça bem parecida com o Tabapuã. Os primeiros animais chegaram por via aérea no dia 17 de março de 1994. Eram nove animais para a 'Fazenda Brumado' de Barretos de propriedade de Rubico Carvalho e outros para Manoel Garcia Cid, Carlos Eduardo Quartim Barbosa, John Jeffcoat e duas empresas agropecuárias. No dia 5 de maio de 1995 foi feita a segunda importação. Vieram 18 animais para a 'Fazenda Brumado'.
No dia 13 de maio de 1996 foram importados mais 16 animais para a mesma fazenda. Até 1994 a raça Brahman esteve legalmente impedida de entrar no Brasil. A liberação veio num esforço conjunto de Rubico Carvalho, de Barretos, Manoel Garcia Cid, de Londrina e as duas maiores entidades encarregadas de promover as raças zebuínas no mundo, a ABCZ e a ABBA, na época presidida respectivamente por Rômulo Kardec de Camargo e John Jeffcoat.

Cacique, touro zebu puro sangue. Comprado por 7 contos, e vencedor da medalha de ouro na Exposição Agro-Pecuária de Uberaba. Propriedade de Joaquim Machado Borges, Fazenda Cascata
 

A história do Zebu em Uberaba (MG)

Hildebrando de Araújo Pontes¹

"No derradeiro quartel do século XIX, o Brasil Central, debatendo-se contra a degenerescência da sua pecuária bovina, lançou mão de reprodutores bovinos de todas as raças que em outros centros do país iam chegando. Mas, o resultado foi negativo. Os criadores do Brasil Central sem um minuto de desfalecimento, lançaram mão da raça zebu que veio, de uma vez, resolver a questão, mau grado a terrível campanha que os criadores paulistas, mineiros e outros fizeram e muitos ainda hoje fazem. E a luta vem de longe. Foi em 1875 que se introduziram, no Triângulo Mineiro, os primeiros exemplares de gado de raça zebu. O major José Inácio de Melo França, natural de Desemboque (MG), adiantado criador e proprietário da fazenda Santa Rosa do Rochedo, município de Jataí (GO), falecido a 7 de setembro de 1929, asseverou-me que, em 1875, se achando no Rio de Janeiro (RJ), fora passear em Santa Cruz, e aí comprara diversos reprodutores bovinos de raça zebu que trouxera para o município de Uberaba (MG). Eram exemplares da variedade "Nelore" e os primeiros daquela raça aqui introduzidos.

[...] Em princípios de 1889, o major Ernesto da Silva e Oliveira, achando-se em Porto Novo do Cunha (RJ), aonde fora a negócios de gado, aí viu uma raça de bovinos que lhe chamou a atenção pela originalidade do seu todo. Eram exemplares da raça zebu que ali já se criavam de longa data. Desse gado comprou dois touros que trouxe embarcados até Três Corações (MG) e daí por terra, até Uberaba (MG).

[...] Em viagem para Uberaba (MG), conduzindo aqueles touros, o major Ernesto da Silva e Oliveira, encontrou-se com o sr. Antônio Fontoura Cachucha, que se mostrou bastante interessado na aquisição de alguns exemplares daqueles bovinos.

Ciente da sua procedência, dirigiu-se a Porto Novo do Cunha (RJ), às fazendas dos senhores Marcondes e dr. Lontra, dos quais comprou sete novilhos que trouxe e vendeu, neste município, a diversos fazendeiros, maior parte dos quais membros da família Rodrigues da Cunha. Anteanimados com a superioridade do zebu, na regeneração do nosso gado bovino, foi que distintos criadores deste município voltaram, com interesse, as suas vistas para esse gado.

Efetivamente, pouco depois, questão de meses, partiu de Uberaba (MG), com destino a Porto Novo, o coronel Teófilo Rodrigues da Cunha, onde adquiriu e trouxe para a sua fazenda Gengibre, a quarta partida de reprodutores zebu introduzida no Triângulo.

Vendendo bem a sua primeira leva, o sr. Cachucha aconselhou ao major Ernesto da Silva e Oliveira a continuar no mesmo ramo de negócio, por ser de primeira ordem.

Este conselho fê-lo voltar ao Rio de Janeiro, para a aquisição da quinta leva de gado zebu que para aqui veio e vendeu a diversos fazendeiros do município, a conto de réis e mais, por cabeça.

Dos dez exemplares de que se compunha esta partida, um foi vendido ao capitão Antônio Borges de Araújo, e foi ele o primeiro touro de raça indiana que entrou para os campos de sua extensa propriedade pastoril.

A sexta leva de reprodutores da raça em apreço foi trazida, ainda de Porto Novo, pelo capitão Joaquim Veloso de Rezende, para os capitães José e Antônio Borges de Araújo. Compunha-se de 4 cabeças, sendo dois touros e uma novilha puros e um garrote de 3/4 de sangue, chegado em Uberaba (MG) no dia 29 de novembro de 1889. Este gado foi o primeiro de tipos puros, de grandes orelhas. Um dos touros era o célebre Lontra, cujo proprietário, capitão Antônio Borges de Araújo, por ele rejeitara, naqueles bons tempos, a gorda oferta de 42 contos de réis!

[...] Muitas outras importações se fizeram depois do capitão Joaquim Veloso até que, em 1893, o coronel Teófilo de Godói, de Araguari (MG), por encargo de diversos criadores do município de Uberaba (MG), foi à Índia, de onde trouxe, diretamente, a primeira leva de gado zebu importado. Depois dessa algumas dezenas de levas ainda foram trazidas de Porto Novo e outros lugares do Rio de Janeiro para criadores de Uberaba (1891-1905).

De 1905 a 1921, cerca de 40 levas foram ainda importadas das índias por criadores de Uberaba (MG), representando outras tantas centenas de cabeças de bovinos a dois contos de réis e mais por unidade.

Hoje - está demonstrado - Uberaba possui melhor gado zebu que a própria Índia. Neste município, o zebu importado encontrou um meio no qual se acha melhor do que no país de onde é originário. A rês, aqui, tem outro aspecto: maior peso, elegância das linhas do corpo, mansidão etc.

Daí formou-se uma raça zebu nacional a que já se deu o nome de Indubrasil, devidamente registrada pelo Herd-Book Zebu de Uberaba de que foi instituidor, há anos, o saudoso dr. José Maria dos Reis.

A criação faz-se pelo sistema extensivo. Daí o não haver, no município, a criação estabulada e sim a semi-estabulada para o gado zebu.

Há três espécies de criadores: o que cria o gado de raça fina para reprodutor; o que cria o gado para o talho e o que se incumbe da era de garrotes para qualquer dos dois fins.

No distrito da cidade há três banheiros carrapaticidas.

Os males que flagelam os rebanhos locais são a diarréia ou pneumo-enterite dos bezerros, a peste da manqueira ou carbúnculo sintomático e o carbúnculo hemático, nos bovinos de sobreano a menos, e o hog-cólera ou batedeira dos leitões, males estes que se curam uns e se previnem outros com o emprego de soros e vacinas anti-carbunculosas.

Na pecuária bovina o sangue zebu substituiu, inteiramente, o sangue das raças antigas do país: china, pedreira, caracu etc.

Hoje, só há predominância das raças indianas: Guzerá, Gir e Nelore [...].

1 – HILDEBRANDOPONTES. História de Uberaba e a Civilização no Brasil Central. Academia de Letras do Triângulo Mineiro, 1978.


 
Gaiolão

A história do Zebu - Campanhas contrárias

José Mendonça¹

"O zebu sofreu no Brasil, por ocasião de sua introdução no país e de sua adaptação ao meio, uma dura e severa campanha.

Dirigiu-a principalmente o ilustre Sr. Dr. Luís Pereira Barreto, homem de justo prestígio nos meios intelectuais e científicos de nossa pátria, médico, filósofo positivista e sociólogo. Pela imprensa e pelo tribunal, em discursos e conferências, levou ao extremo a luta contra o gado indiano.

Dizia que o zebu não possui valor econômico, pois, sua carne é dura, não é gado leiteiro (sua produção de leite é inferior à das raças européias) e é um animal rude e selvagem. Além disso, tem carne almiscarada.

Essa campanha impressionou, vivamente, numerosos fazendeiros e mesmo as esferas governamentais do país. O zebu passou a ser repudiado, em muitos lugares. Nem era aceito nas exposições. Era considerado um "bicho".

O Cel. José Caetano Borges e o Dr. José Maria dos Reis levaram, certa vez, uma leva de zebus a uma Exposição, em Belo Horizonte (MG). O gado foi recusado, não queriam admiti-lo.

Foi necessário que os distintos uberabenses se dirigissem a João Pinheiro, o grande estadista que presidia Minas Gerais que, com sua segura visão dos fenômenos econômicos e sociais, determinou que o rebanho fosse recebido na Exposição e o mesmo julgado.

Para provar que a carne do zebu não é almiscarada, o Cel. Antonio Borges de Araújo, um dia, abateu uma novilha de raça, em pleno largo da Matriz (Praça Rui Barbosa).

Os uberabenses suportaram, com denodo e firmeza, essa terrível campanha. E venceram-na, magnificamente, pelo bem do Brasil. Aliás, devemos observar que o ilustre Sr. Dr. Luís Pereira Barreto não foi feliz, nas principais lutas que desenvolveu, no país: a que fez contra o zebu e as que empreendeu pelo cultivo do "Café Bourbon" e da Maniçoba."


1 - JOSÉ MENDONÇA. História de Uberaba. Edição Academia de Letras do Triângulo Mineiro, 1974.


Celso Garcia Cid, (à esq.) fez três viagens à India, entre 1957 e 1962, e estabeleceu amizade com o marajá de Bhavnagar